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Éter

ÉTER era o ar de cima — não o que se respira, mas a camada luminosa e pura que os gregos imaginavam acima das nuvens, onde moram os deuses e por onde os astros correm. Nasceu da Noite, e a genealogia é exata no que quer dizer: a luz do alto vem do escuro, e não o contrário. Ao lado da irmã Hêmera, o Dia, forma o par que se alterna com os pais — Érebo e Nix — no movimento mais antigo que a cosmogonia grega descreve.

O nascimento

Hesíodo põe Éter na quarta geração do mundo, e a frase que o traz é a mesma que traz o Dia. Não são divindades separadas: são as duas metades de uma coisa só, nascidas juntas, da mesma união.

Do Caos nasceram Érebo e a negra Noite; mas da Noite nasceram Éter e o Dia, que ela concebeu e deu à luz da união em amor com Érebo.

Hesíodo, Teogonia 124 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

A ordem importa. Antes de Éter existir há Caos, Terra, Tártaro e Eros; depois vêm Érebo e Noite, que são a escuridão de baixo e a de cima. Só então nasce a luz — e ela nasce por um ato de amor entre as duas escuridões. Nenhuma outra cosmogonia antiga faz a claridade descender da treva com tanta economia.

O que os gregos entendiam por «éter»

A palavra grega αἰθήρ vem de um verbo que significa «arder», «brilhar». Éter não é o ar comum — esse é o aér, a camada baixa, nublada, onde vivem os homens. Éter é o que está acima: fino, incandescente, imóvel. Homero situa nele o trono de Zeus, e é por atravessá-lo que os deuses vão de um lugar ao outro sem tocar o chão.

Essa distinção sobreviveu à mitologia. Aristóteles fará do éter o quinto elemento — a matéria dos corpos celestes, incorruptível, distinta dos quatro elementos terrestres —, e a física europeia carregará a palavra até o século XIX, quando ela finalmente sai de cena com a experiência de Michelson e Morley. Poucos nomes de divindade grega tiveram carreira tão longa fora da religião.

O irmão e o pai

Éter quase nunca aparece sozinho. Na poesia órfica ele é pai de Urano, o Céu; em Higino, aparece como pai da própria Terra e de todos os primeiros deuses, numa genealogia diferente da hesiódica. Essas divergências não são erro: são tradições paralelas, e cada uma organiza o mundo de um jeito.

O que todas concordam é sobre a função. Éter é o meio — aquilo através do qual as coisas do alto acontecem. Uma divindade sem mito próprio, sem culto conhecido e sem imagem: existe para que o céu tenha do que ser feito.

O quinto e o sexto seres do universo

Éter não é criado: ele **nasce**, e nasce de um casal que a Teogonia acabou de apresentar.

Na verdade, primeiro veio a ser o Caos; mas em seguida a Terra de amplo seio, o fundamento sempre firme de todos os imortais que ocupam os cumes do nevado Olimpo, e o escuro Tártaro nas profundezas da Terra de largos caminhos, e Eros (Amor), o mais belo entre os deuses imortais. Do Caos saíram Érebo e a negra Noite; mas da Noite nasceram Éter e o Dia, que ela concebeu e gerou da união em amor com Érebo.

Hesíodo, Teogonia 116-125 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **Repare no movimento: do escuro nasce o claro.** Érebo é a treva do fundo, a Noite é a treva de cima; e o filho dos dois é o **ar luminoso do alto**. A Teogonia não faz a luz aparecer de fora — faz a escuridão dar à luz.

Éter é o par masculino de Hêmera, o Dia. Ver Hêmera, Erebus e Nyx.

O que é o Éter, e por que não é «o céu»

Éter e Urano são coisas diferentes, e a confusão entre eles é o erro mais comum sobre esta página.

**Urano** é o céu como estrutura — a abóbada sólida que cobre a Terra, do tamanho dela, gerada por ela. Ver Uranus. **Éter** é a matéria: o ar puro e brilhante da parte de cima, o que os deuses respiram, distinto do *aer* — o ar embaciado que os homens respiram lá embaixo.

★ A distinção é técnica e a língua grega a mantém: quando um herói de Homero morre, a alma dele vai para o *aer*; quando um deus se move, ele atravessa o *aither*. **São dois andares de atmosfera, com dois nomes.**

É por isso que Éter não tem mito: ele não é personagem, é o **material** de que o alto é feito. A física antiga levaria essa palavra a sério por dois mil anos, e ela ainda estava em uso científico no século XIX.