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Frixo

FRIXO é filho de Átamas, rei da Beócia, e da nuvem Nefele. ⚠ A história dele é a origem do Velo de Ouro — quer dizer, **é a razão pela qual Jasao tem de ir ao fim do Mar Negro buscar uma pele de carneiro.** E é uma história de fraude doméstica: a madrasta não pede a morte do enteado; fabrica as condições para que a cidade a peça.

★★★ A fome fabricada

Ino, a segunda mulher de Átamas, tem filhos seus e um problema: os filhos da primeira mulher estão à frente na sucessão. O que ela monta a seguir é um golpe em três tempos, e Apolodoro descreve-o como quem descreve uma máquina.

«Mas Ino conspirou contra os filhos de Nefele e **persuadiu as mulheres a torrar o trigo**; e, tendo recebido o trigo, elas fizeram-no sem o conhecimento dos homens. Mas a terra, semeada com trigo torrado, não deu as colheitas anuais; de modo que Átamas mandou a Delfos perguntar como poderia ser livrado da carestia. Ora Ino persuadiu os mensageiros a dizer que estava profetizado que a infertilidade cessaria se Frixo fosse sacrificado a Zeus.»

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **Ela não envenena ninguém: adultera a semente.** ⚠ E o segundo passo é o que faz a coisa funcionar — **as mulheres torram o trigo «sem o conhecimento dos homens».** A conspiração passa pelo único circuito da casa a que os homens não assistem.

★★ **E o terceiro passo é subornar o oráculo pelo lado dos mensageiros.** Delfos não mente; quem mente é o correio. ⚠ **É a fraude perfeita porque cada peça é verificável e nenhuma é verdadeira.**

⚠ E funciona ao ponto de o pai perder o comando: «quando Átamas ouviu isso, **foi forçado pelos habitantes da terra** a levar Frixo ao altar». **A vontade da cidade faminta é que segura a faca.**

O carneiro que veio pelo ar

O salvamento é de último instante, e o veículo tem proveniência declarada.

«Mas Nefele arrebatou-o a ele e à filha e **deu-lhes um carneiro com um velo de ouro, que ela recebera de Hermes**; e, levados pelo ar pelo carneiro, atravessaram terra e mar.»

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★ **O carneiro não é mágico por natureza: é uma entrega.** Foi Hermes quem o deu a Nefele, e Hermes é o mensageiro — **o Velo de Ouro entra na história como encomenda divina, com remetente e destinatária.**

⚠ E a viagem tem uma baixa. Sobre o mar entre Sigeu e o Quersoneso, a irmã escorrega e cai. Ver Hele, e o mar que passou a ter o nome dela.

★ O carneiro está no céu: é a constelação de Áries — **o primeiro signo do zodíaco é o transporte de fuga de duas crianças beócias.**

⚠ O primeiro ato do salvo é matar quem o salvou

Frixo chega à Cólquida, é recebido pelo rei Eetes e casa com uma filha dele. E o que faz a seguir é a parte da história que ninguém conta às crianças.

«E **Frixo sacrificou a Zeus, deus da Fuga, o carneiro do velo de ouro**, e o velo deu-o a Eetes, que o pregou a um carvalho num bosque de Ares.»

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **O animal que o tirou do altar acaba num altar.** ⚠ E o deus a quem é oferecido é *Zeus Phyxios* — «Zeus da Fuga» —, ou seja: **o carneiro é sacrificado em ação de graças pela própria fuga que ele executou.** A lógica é impecável e é monstruosa.

★★ E é assim que o velo fica pregado a um carvalho, guardado por um dragão que não dorme, no fim do mundo conhecido — **à espera de Jasao, quatro capítulos e uma geração adiante.** Ver Jasao.

★★★ A história que ainda matava gente no tempo de Heródoto

⚠ Isto não é um mito arrumado. **Quando Xerxes marcha sobre a Grécia, em 480 a.C., os guias param numa cidade da Acaia para lhe mostrar um rito vivo** — e o rito é este.

«Contaram-lhe a história que se conta naquele país a respeito do culto de Zeus Lafístio, a saber, como Átamas filho de Éolo tramou com Ino a morte de Frixo, e ainda como os aqueus, por ordem de um oráculo, obrigam os descendentes de Frixo a certas tarefas. **Ordenam ao mais velho dessa família que não entre no edifício do conselho** (a que os aqueus chamam Casa do Povo) e eles próprios montam guarda ali.»

Heródoto, Histórias 7.197 (trad. A. D. Godley, 1920)

⚠⚠ E a regra tem uma cláusula que a torna uma armadilha, não uma proibição.

«Se ele entrar, não pode voltar a sair, **a não ser para ser sacrificado**. Dizem também que muitos dos que iam ser sacrificados tinham fugido com medo para outro país, e que, se regressavam mais tarde e eram apanhados, eram levados ao edifício do conselho. Os guias mostraram a Xerxes como o homem é sacrificado: com faixas a cobri-lo todo e um cortejo a conduzi-lo.»

Heródoto, Histórias 7.197 (trad. A. D. Godley, 1920)

★★★ **Uma família inteira em fuga hereditária, geração após geração, por causa de um antepassado que salvou o próprio pai de ser bode expiatório.** ⚠ E a explicação dada por Heródoto é essa mesma: foi Citissoro, filho de Frixo, que veio da Cólquida livrar Átamas do sacrifício — **e trouxe assim a ira do deus sobre a própria descendência.**

★★ E o remate mede o peso da coisa: **Xerxes, que a seguir mandaria chicotear o mar, recusou entrar no bosque sagrado e proibiu o exército de o fazer.** Ver Hele.