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Hele

HELE é irmã de Frixo e filha da nuvem Nefele. ⚠ **Na literatura antiga ela não faz absolutamente nada** — não fala, não decide, não é tentada: sobe ao carneiro com o irmão e cai. **E, contudo, o nome dela ficou colado ao estreito que separa dois continentes**, e é dito ainda hoje sempre que se fala do Helesponto.

A queda, contada em vinte palavras

Apolodoro não a demora. A frase da morte dela é subordinada à frase da viagem do irmão.

«E, levados pelo ar pelo carneiro, atravessaram terra e mar. Mas, quando estavam sobre o mar que fica entre Sigeu e o Quersoneso, **Hele escorregou para o fundo e afogou-se, e o mar foi chamado Helesponto** por causa dela. Mas Frixo chegou aos colcos, cujo rei era Eetes.»

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★ **«Escorregou.»** ⚠ Não há castigo, não há culpa, não há prova falhada. **É um acidente de transporte** — e é raríssimo na mitologia grega, onde quase toda a morte é uma sentença.

★ E o lugar é dado com precisão de piloto: **entre Sigeu e o Quersoneso** — ou seja, exatamente à entrada do estreito, à vista de onde Troia estava. Ver Frixo.

★★★ O que o nome dela passou a nomear

*Hellespontos* lê-se como «o mar de Hele». E o mar de Hele é a garganta de água que liga o Egeu ao Mar de Mármara e, por ele, ao Mar Negro — **um canal com menos de dois quilómetros de largura no ponto mais estreito.**

★★ **É a fronteira entre a Europa e a Ásia**, e é a razão de ser de Troia: quem manda ali cobra a passagem de todo o trigo e de todo o metal que descem do Mar Negro. ⚠ **Metade das guerras da Antiguidade passa por este nome.**

E em 480 a.C. Xerxes atravessou-o com uma ponte de barcos. Uma tempestade desfez a primeira ponte, e a resposta do rei entrou para a história do disparate.

«Quando Xerxes soube disto, ficou muito irado e ordenou que o Helesponto fosse açoitado com trezentas chicotadas e que **um par de grilhões fosse atirado ao mar**. Até ouvi dizer que mandou com eles ferradores para marcar a ferro o Helesponto.»

Heródoto, Histórias 7.35 (trad. A. D. Godley, 1920)

★★★ **Trezentas chicotadas num estreito, e grilhões atirados à água.** ⚠ E o que os carrascos tinham de recitar enquanto batiam é a única fala documentada dirigida a este mar.

⚠ «Água amarga»: o discurso ao mar

Heródoto conserva as palavras, e chama-lhes «exteriores e presunçosas».

«Água amarga, **o nosso senhor castiga-te assim porque lhe fizeste** mal, embora ele nenhum te tenha feito. O rei Xerxes passará por cima de ti, quer queiras quer não; e com justiça ninguém te oferece sacrifício, pois és um rio turvo e salgado.»

Heródoto, Histórias 7.35 (trad. A. D. Godley, 1920)

★★ **«Com justiça ninguém te oferece sacrifício.»** ⚠ A frase nega ao Helesponto a condição de divindade — e é dita a um mar que tem nome de pessoa. **É o império a declarar que a água não é ninguém**, num sítio cujo topónimo diz que a água é uma menina afogada.

★ E Heródoto fecha a conta: mandou também **decapitar os engenheiros da ponte.** Ver Frixo, que o mesmo Xerxes tratou com reverência a poucos dias de marcha dali.

A irmã que a tradição não deixou crescer

⚠ Hele é o caso mais claro de uma figura que **existe para explicar um nome.** A ordem provável é a inversa da narrativa: primeiro havia o estreito com aquele nome, depois veio a menina que justificasse o nome.

★★ E é por isso que ela não tem biografia: **uma personagem etiológica só precisa de fazer a coisa que dá origem ao nome.** Tudo o mais seria excesso — e o mito não gasta nada.

★ A tradição tardia deu-lhe uma consolação e casou-a com Poseidon no fundo do mar, com um filho chamado Peon; ⚠ **mas isso é acrescento posterior, e nenhuma das fontes deste acervo o regista.** Ver Poseidon.

E o mar guardou-lhe o nome durante dois mil e quinhentos anos, até uma língua nova o rebatizar: **hoje chama-se Dardanelos** — e o nome que substituiu o dela também é o de um herói grego.